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Meio Ambiente Especial Ambiental

O colapso anunciado da gestão de Resíduos sólidos.

O lixo que não sabemos para onde vai.

04/06/2025 às 13h30
Por: Redação
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O colapso anunciado da gestão de Resíduos sólidos.
O especial Ambiental do Conexão amazonas chega ao terceiro capítulo e traz a tona um problema que vai afetar a todos e ainda é mais grasve no interior onde a Gestão de Resíduos Sólidos Urbanos é um desafio.  Em meio à vastidão verde da Amazônia, este é um problema crescente e muitas vezes invisível que se acumula: o lixo. A gestão dos resíduos sólidos urbanos (RSU) representa um dos maiores desafios ambientais e de saúde pública para Manaus e para os municípios do interior do Amazonas. Enquanto a capital lida com um aterro sanitário controlado que opera no limite de sua capacidade e busca alternativas para o futuro, a realidade no interior é ainda mais alarmante, com a persistência generalizada de lixões a céu aberto. Este capítulo mergulha nas complexidades da coleta, destinação e gestão do lixo em uma metrópole cercada por biodiversidade e em um estado onde a logística e a falta de recursos impõem barreiras significativas para a implementação de soluções sustentáveis.
 
 
Manaus, uma cidade que gera um volume colossal de resíduos – estimado em mais de 2.300 toneladas por dia, ou cerca de um milhão de toneladas por ano, segundo diferentes fontes e períodos de análise (G1, 2017; Portal Amazônia, 2022; Studies Publicações, 2024) –, concentra seus esforços em um único aterro sanitário controlado, localizado na rodovia AM-010. Esta estrutura, que recebe diariamente entre mil e 2.500 caminhões de lixo (Abrema, 2024), é um veterano de quase quatro décadas, previsto para completar 40 anos de operação em 2025. Sua vida útil, no entanto, já se esgotou há tempos, conforme apontam laudos técnicos e relatórios do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM).
 
 
Por meio de um acordo judicial homologado pelo Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) em abril de 2024, o funcionamento do atual aterro foi prorrogado até abril de 2028. Essa decisão, embora ofereça um fôlego temporário, evidencia a urgência na busca por uma solução definitiva. O acordo prevê que, até essa data, um novo aterro sanitário, ambientalmente adequado, esteja instalado e em operação (TJAM, 2024; G1, 2024). A situação é delicada, envolvendo um histórico de discussões judiciais que remontam a 1990 e multas acumuladas pela prefeitura por descumprimento de prazos e exigências ambientais (Amazonas Atual, 2024; Diário da Capital, 2025).
 
 
Projetos para novos aterros existem. O IPAAM informa ter recebido para licenciamento dois projetos de aterros sanitários privados de grande porte, destinados a atender a demanda da capital. Um desses projetos, que inclui a inovadora proposta de geração de biometano a partir do lixo, enfrenta, contudo, impasses burocráticos e políticos para sua efetiva operação, gerando incertezas sobre o futuro da destinação dos resíduos manauaras (IPAAM; Folha de S.Paulo, 2025; Portal Tela, 2025).
Enquanto a destinação final caminha a passos lentos, a reciclagem em Manaus ainda engatinha. Dados de 2023 indicavam que a cidade reciclava apenas 2,1% de seus resíduos, um índice significativamente abaixo da já modesta média nacional de 4% (A Crítica, 2023). Embora exista coleta seletiva em alguns bairros, sua abrangência é limitada, e falta uma infraestrutura mais robusta para triagem e valorização dos materiais recicláveis.
Se a situação em Manaus é complexa, no interior do Amazonas ela beira o colapso ambiental. O relatório "Panorama da Destinação Final de Resíduos Sólidos Urbanos no Estado do Amazonas", elaborado pelo IPAAM e divulgado em 2024, traça um cenário desolador: 99% dos municípios do interior ainda utilizam lixões a céu aberto como forma de destinação final. Com exceção de Manaus e Nhamundá, nenhum outro município possuía, segundo o IPAAM, um projeto estruturado de coleta seletiva implantado pela prefeitura.
 
 
A realidade encontrada nas fiscalizações do órgão ambiental é a de vazadouros sem qualquer infraestrutura mínima, como cercas, guaritas ou sistemas de drenagem para o chorume – líquido altamente poluente gerado pela decomposição do lixo. É comum a presença de catadores trabalhando em condições insalubres, animais buscando restos de comida e até mesmo moradias construídas dentro ou no entorno imediato dessas áreas, como no caso emblemático de Manacapuru, onde uma comunidade inteira se formou dentro do lixão municipal (IPAAM, 2024).
A erradicação desses lixões, uma exigência da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010), enfrenta múltiplos obstáculos no Amazonas. A vasta extensão territorial e a dependência do transporte fluvial dificultam a formação de consórcios intermunicipais para a construção de aterros regionais – solução que seria economicamente mais viável, já que a maioria dos municípios não atinge a população mínima de 100 mil habitantes estimada como necessária para a sustentabilidade de um aterro individual (IPAAM, 2024).
A falta de recursos financeiros é outra barreira crítica. Muitos municípios possuem baixa arrecadação própria, dependendo fortemente de repasses estaduais e federais, e alegam não ter verba para investir na construção e, principalmente, na custosa operação de aterros sanitários adequados. A ausência de corpo técnico qualificado nas prefeituras agrava o problema. Como resultado, os Planos Municipais de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, quando existem, frequentemente estão desatualizados ou são inconsistentes, e os Termos de Ajustamento de Conduta firmados com o IPAAM acabam não sendo cumpridos (IPAAM, 2024).
 
As mudanças climáticas adicionam outra camada de complexidade. As cheias e vazantes cada vez mais extremas na região amazônica limitam a disponibilidade de áreas seguras e tecnicamente adequadas para a instalação de aterros, que não podem estar sujeitos a inundações (IPAAM, 2024). Além disso, a falta de educação ambiental e de apoio estruturado às cooperativas de catadores dificulta o avanço da coleta seletiva e da reciclagem no interior.
Diante desse quadro, o IPAAM e especialistas apontam caminhos. A compostagem do alto volume de resíduos orgânicos gerados poderia beneficiar a agricultura familiar nos pequenos municípios. A estruturação da coleta seletiva, a instalação de centrais de triagem para separar os recicláveis e a criação de logística reversa para escoar esses materiais até as indústrias recicladoras são passos fundamentais. A instalação e operação correta de aterros sanitários para receber apenas os rejeitos (aquilo que não pode ser reciclado ou compostado) é a meta final da destinação adequada. Para financiar tudo isso, sugere-se a implementação de mecanismos de cobrança pela gestão do lixo, como taxas municipais, de forma socialmente justa, similar ao que ocorre com os serviços de água e energia (IPAAM, 2024).
 
A gestão de resíduos sólidos no Amazonas é, portanto, um quebra-cabeça complexo que exige soluções integradas, investimentos robustos, planejamento de longo prazo e, acima de tudo, um compromisso compartilhado entre poder público, iniciativa privada e sociedade civil. O futuro ambientalmente saudável da região depende diretamente da forma como lidamos com aquilo que descartamos.
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