
Capítulo 1:
MANAUS - Ancorada no coração da maior floresta tropical do mundo, Manaus pulsa em um ritmo próprio, uma metrópole de mais de dois milhões de habitantes onde a exuberância da natureza convive lado a lado com os desafios urbanos. Mas sob a copa das árvores e o concreto que avança, a capital amazonense se tornou palco de um drama ambiental cada vez mais intenso, um retrato vívido dos contrastes que marcam a Amazônia contemporânea. A cidade, banhada pelo majestoso Rio Negro, vive hoje sob o signo dos extremos: de um lado, secas históricas que paralisam a vida e revelam paisagens desoladoras; de outro, enchentes catastróficas que submergem ruas, casas e esperanças. Este capítulo inaugural do Especial Ambiental mergulha nessa realidade complexa, investigando como Manaus enfrenta a fúria das águas e a agonia da estiagem, eventos climáticos extremos que se tornaram a nova e preocupante normalidade.
A dança das águas sempre ditou a vida na Amazônia, mas o ritmo se tornou errático, imprevisível. Os ciclos naturais de cheia e vazante, que por séculos moldaram a cultura e a economia local, estão sendo profundamente alterados. Eventos que antes eram considerados raros, ocorrendo a cada décadas ou séculos, agora se sucedem em intervalos alarmantemente curtos, desafiando a capacidade de adaptação da cidade e de sua população

A natureza implacável: Quando o Rio Transborda
O ano de 2021 ficou marcado na memória dos manauaras. Em junho daquele ano, o Rio Negro, principal artéria fluvial que abraça a cidade, atingiu uma marca sem precedentes. As réguas do Porto de Manaus registraram a cota de 30,02 metros, superando o recorde anterior de 29,97 metros estabelecido em 2012. Foi a maior enchente em 119 anos de medições, um evento que submergiu partes significativas da capital e dezenas de outros municípios amazonenses.
O cenário era desolador. O centro histórico, cartão postal da cidade, viu suas ruas transformadas em canais. A Praça do Relógio e o imponente prédio da Alfândega, testemunhas da era áurea da borracha, ficaram com os "pés" na água. A tradicional Feira da Manaus Moderna, ponto nevrálgico do abastecimento local, foi invadida pelas águas escuras do Negro, forçando a transferência de feirantes para balsas improvisadas, numa tentativa de manter viva a economia local (G1, 2021). A circulação de pessoas em diversas áreas, incluindo bairros residenciais e comerciais, passou a depender exclusivamente de pontes de madeira elevadas, as marombas, que serpenteavam sobre a água barrenta.
Os números da Defesa Civil do Amazonas revelavam a dimensão da catástrofe humana: mais de 455 mil pessoas foram afetadas em 58 dos 62 municípios do estado. Só em Manaus, estimava-se que 24 mil famílias tiveram suas vidas diretamente impactadas pela inundação (Poder360, 2021; Amazônia Real, 2021). Comerciantes do centro e de outras áreas baixas relataram prejuízos imensos, com mercadorias perdidas e estabelecimentos alagados, mesmo com a construção de barreiras de contenção. A cheia não respeitou muros, invadiu lojas, casas e sonhos.
O fenômeno de 2021 não foi um ponto fora da curva, mas a confirmação de uma tendência preocupante. Das dez maiores cheias registradas na história de Manaus, seis ocorreram na década anterior a 2021 (Brasil de Fato, 2021). A frequência desses eventos extremos acende um alerta vermelho sobre a vulnerabilidade da região e a intensificação dos impactos das mudanças climáticas globais, potencializadas por fatores locais como o desmatamento.

A Agonia da Estiagem: Quando o Rio Desaparece
O pêndulo climático, no entanto, oscila com violência para o extremo oposto. Se as cheias de 2021 deixaram cicatrizes profundas, as secas que se seguiram, especialmente em 2023 e 2024, trouxeram um tipo diferente de angústia, revelando a fragilidade dos sistemas que dependem da constância das águas.
Em outubro de 2024, Manaus vivenciou, pelo segundo ano consecutivo, a pior seca de sua história registrada. O Rio Negro atingiu a marca mínima de 12,66 metros, superando o recorde negativo de 12,70 metros estabelecido no ano anterior (G1, 2024). A paisagem se transformou drasticamente. Onde antes havia água abundante, surgiram extensos bancos de areia, praias improvisadas e um leito de rio irreconhecível.
A Praia da Ponta Negra, principal balneário urbano e ponto de encontro da cidade, foi interditada para banhistas, um símbolo do impacto direto da estiagem na vida social e no lazer manauara. O icônico Encontro das Águas, fenômeno natural onde as águas escuras do Rio Negro e as barrentas do Solimões correm lado a lado sem se misturar, tornou-se mais difícil de observar, um reflexo da drástica redução do volume hídrico (G1, 2024).
As consequências da seca se espalharam por toda a bacia hidrográfica, afetando diretamente a vida de centenas de milhares de pessoas. Em outubro de 2024, a Defesa Civil estimava que quase 770 mil pessoas e 190 mil famílias sofriam os impactos da estiagem severa em todo o Amazonas. Municípios como Tabatinga, Coari e Parintins viram seus rios atingirem níveis críticos, comprometendo o transporte, o abastecimento e a economia local (G1, 2024).
A navegação fluvial, espinha dorsal do transporte de pessoas e mercadorias na Amazônia, foi severamente prejudicada. Embarcações ficaram encalhadas, rotas tiveram que ser alteradas e o custo do frete aumentou, impactando o preço final de alimentos e produtos essenciais. Em Manaus, o porto viu navios de grande calado se afastarem, obrigando a operações de transbordo em cidades como Itacoatiara, onde o Rio Amazonas ainda permitia a passagem (G1, 2024).
Para as comunidades ribeirinhas, a seca representou um golpe devastador. Getúlio de Castro, carpinteiro morador da Marina Rio Belo, relatou ao G1 em 2024 que um trajeto que normalmente levava dez minutos passou a exigir duas horas, incluindo trechos onde era preciso descer da canoa e empurrá-la pela lama. O isolamento e o custo elevado do combustível tornaram-se barreiras intransponíveis para muitos. Pequenos empresários, como donos de estaleiros e restaurantes flutuantes, viram seus negócios minguarem. Erick Santos, proprietário de um restaurante no Puraquequara, relatou uma queda de 50% no faturamento e a dificuldade em obter insumos básicos, além do aumento no preço do peixe, reflexo da dificuldade da pesca e do transporte (G1, 2024).
O Retrato de um Planeta em Transformação
Os extremos que castigam Manaus não são meras fatalidades climáticas. São sintomas evidentes de um planeta em profunda transformação, onde a ação humana, principalmente através da emissão de gases de efeito estufa e do desmatamento, desequilibra sistemas naturais complexos. Renato Senna, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), explicou em 2024 que a seca severa era fruto de uma combinação de fatores, incluindo os efeitos prolongados da estiagem anterior, a influência do fenômeno El Niño e o aquecimento anômalo das águas do Oceano Atlântico Tropical Norte. Esses elementos, combinados, alteraram a circulação atmosférica sobre a região, dificultando a formação de nuvens e reduzindo drasticamente o volume de chuvas durante a estação que deveria ser úmida (G1, 2024).
Um estudo da World Weather Attribution (WWA), divulgado em janeiro de 2024, corroborou essa visão, concluindo que a mudança climática tornou a seca de 2023 na Amazônia 30 vezes mais provável (Gov.br, 2024). A floresta, que desempenha um papel crucial na regulação do clima global, está reagindo aos sinais de um planeta febril.
Manaus, a metrópole encravada na floresta, vive assim um paradoxo doloroso. Ao mesmo tempo em que sofre com a fúria das águas que transbordam, agoniza com a falta delas quando os rios encolhem. Esses extremos revelam não apenas a vulnerabilidade ambiental da cidade, mas também as profundas desigualdades sociais. As populações mais pobres, que habitam áreas de risco em palafitas ou dependem diretamente dos recursos fluviais para sua subsistência, são invariavelmente as mais atingidas, seja pela cheia que invade seus lares, seja pela seca que lhes tira o sustento e o acesso à água potável.
A crise ambiental em Manaus é um microcosmo dos desafios que a Amazônia e o mundo enfrentam. A resposta exige mais do que medidas paliativas, como a distribuição de ajuda humanitária ou a construção de marombas e portos flutuantes, ainda que essenciais em momentos de crise. Requer uma profunda reflexão sobre o modelo de desenvolvimento urbano na região, o manejo sustentável dos recursos hídricos, o combate implacável ao desmatamento e um compromisso global com a redução das emissões de gases de efeito estufa. A cidade entre extremos clama por um futuro onde o equilíbrio, e não a crise, seja a nova normalidade.
A Semmasclima é responsável por implementar políticas públicas voltadas para a conservação ambiental e a promoção da sustentabilidade em Manaus. As funções do órgão incluem o gerenciamento de áreas verdes, a proteção de recursos hídricos, a fiscalização de atividades poluentes e a execução de programas de educação ambiental.
Uma das estratégias para mitigar as consequências das mudanças climáticas é a intensificação do plantio de novas árvores. Nos últimos cinco meses, já foi plantado o triplo do que foi em todo o ano de 2024. Manaus já conta com 12 mil novas árvores em diversas áreas.
Outro ponto de destaque é a elaboração de três importantes planos de gestão que colocam Manaus em destaque a nível nacional. São eles: Plano de Ação Climática, Plano de Saneamento Básico e Plano de Redução de Riscos. Todos estão com entrega prevista para o fim de 2025.

Questionado pelo Conexão Amazonas sobre o trabalho da SEMMAS para a população o Secretário de Meio Ambiente e Emergência Climatica Professor Fransuá Matos respondeu "Manaus é uma cidade que cresceu de forma desordenada, ao longo de toda sua história. Áreas que seria de preservação foram ocupadas de forma irregular, com a poluição de corpos hídricos e ausência de estrutura mínima. Com isso, os desafios de conservação são grandes. Devido a falta de planejamento, o índice de Arborização urbana acaba sendo menor que o ideal, com poucas espécies plantadas em frente aos domicílios. Tal realizade vem sendo mudada com as ações de plantio realizadas pela gestão municipal. A gestão ambiental procura aliar conservação e desenvolvimento sustentável, por meio de seus programas e projetos e manutenção de unidades de conservação.

Não perca, amanhã no Especial Ambiental Conexão Amazonas uma materia especial sobre a água e o sistema de esgoto da cidade. Como estamos lidando com esse problema que afeta diretamente mais de 1 milhão de moradores de Manaus.
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