
A partir do século 19, começando pelo Rio Grande do Sul, o Brasil recebeu trabalhadores e famílias alemãs que iniciaram oficialmente um processo de imigração, trazendo tradições e contribuindo para o desenvolvimento de vários setores da vida nacional.
O Senado homenageou os 200 anos da imigração alemã no Brasil em uma sessão especial nesta quinta-feira (4) presidida pelo senador Flávio Arns (PSB-PR), descendente de alemães. Ele ressaltou que centenas de milhares de imigrantes chegaram ao longo dos dois séculos e geraram milhões de descendentes. Vários deles se destacaram em áreas como artes, ciências, política, esportes, economia e negócios.
— Em 1824, quando chegaram os primeiros imigrantes alemães, o Brasil era uma nação que acabara de se tornar independente e, em muitos sentidos, uma nação em construção. Foi também naquele ano que ocorreu a fundação do Senado Federal, que está completando 200 anos, outro marco importantíssimo para a formação de nosso país — contextualizou Arns.
Em 25 de julho de 1824, 39 imigrantes de língua alemã chegaram ao Rio Grande do Sul, marcando a fundação da então colônia, e hoje município, de São Leopoldo. O grupo pioneiro atravessou o oceano Atlântico em busca de novas oportunidades. Com idades entre alguns meses e 49 anos, eles partiram dos portos de Hamburgo e Bremen e, além da travessia oceânica de 120 dias, tiveram que enfrentar uma dura jornada por terra. Eles trouxeram técnicas avançadas de cultivo, introduzindo novas culturas e impulsionando a produção agrícola.
— Os imigrantes alemães não vieram ao Brasil com a intenção de explorar nossas riquezas para levá-las a seu país de origem. Pelo contrário, eles vieram com a firme intenção de tornar o Brasil o seu novoheimat, a sua nova pátria. Nesse contexto, os alemães promoveram uma verdadeira revolução na agricultura brasileira, caracterizada pela predominância de pequenas propriedades e produções diversificadas, nos moldes da cultura camponesa da Europa Central — afirmou a senadora Ivete da Silveira (MDB-SC).
A senadora catarinense também ressaltou a integração dos imigrantes no contexto geográfico, social e climático brasileiro, mantendo suas próprias raízes culturais e fundando escolas, hospitais, igrejas e jornais. Ivete mencionou figuras ilustres no Brasil como o arquiteto Oscar Niemeyer, descendente de Konrad von Niemeyer, nascido em Hanover; o paisagista Roberto Burle Marx, filho de Wilhelm Marx, nascido em Trier; e o compositor e maestro Heitor Villa-Lobos, que se inspirou em Johann Sebastian Bach, um dos maiores compositores alemães de todos os tempos.
O historiador e membro da Academia Brasileira de Letras, Arno Wehling, destacou que, antes da imigração começar, o Brasil tentava encontrar alternativas para o sistema colonial e escravista.
— Buscava também, como já se fazia desde o governo de D. João VI, alternativa à forte influência inglesa, razão principal da aliança com a Áustria por meio do casamento do príncipe herdeiro D. Pedro com a princesa Leopoldina, filha do imperador Francisco I — disse.
A Alemanha estava em plena transformação por conta da Revolução Industrial, com grandes deslocamentos de mão de obra mal remunerada do campo para as cidades. As regiões onde se falava o alemão eram muito heterogêneas, inclusive do ponto de vista político e religioso.
Nesse contexto, em 1824 foi fundada a colônia alemã de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, em homenagem à imperatriz D. Leopoldina. Depois veio a colônia Rio Negro, na futura província do Paraná. Um ritmo imigratório permanente levou às fundações de Nova Petrópolis (RS), Blumenau, Joinville, e Brusque, em Santa Catarina.
— A evidência da imigração alemã para o Brasil, como a de tantos outros povos, demonstra como as migrações, gerando miscigenação biológica e cultural, longe de criar guetos e substituição de uma identidade por outra, foi capaz de estimular o surgimento de uma sociedade afluente e de trazer novos aportes que se incorporaram ao processo permanente de formação do povo brasileiro — arrematou Wehling.
A embaixadora da Alemanha, Bettina Cadenbach, lembrou que existem mais de mil empresas alemãs no Brasil e os dois países são parceiros estratégicos.
— Essa diversidade do Brasil é algo especial e também se reflete em muitos aspectos da imigração alemã, em costumes mantidos e misturados ao modo de vida brasileiro, na língua alemã ainda falada em partes do Brasil e em empresas alemãs no país. Essa integração alemã na vida brasileira e a preservação de alguns hábitos culturais alemães levaram a vínculos que continuam até hoje — afirmou.
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