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No compasso dos encontros, o relógio das coisas simples
Em um mundo em que o tempo parece ser senhor de tudo, inclusive de nós mesmos, passamos a temer o silêncio dos dias e a quase esquecer de apreciar ...
01/11/2026 12h18
Por: Redação Fonte: Secom Acre

Em um mundo em que o tempo parece ser senhor de tudo, inclusive de nós mesmos, passamos a temer o silêncio dos dias e a quase esquecer de apreciar os sons naturais ao nosso redor. O jornalismo me proporciona experiências que dificilmente viveria em outra profissão, entre elas a oportunidade de conhecer comunidades onde o tempo parece seguir outro compasso.

Sempre me recordo dessa ideia quando visito lugares que ainda convivem em paz com o tempo, respeitando seu ritmo, sem a urgência constante de responder e-mails, cumprir prazos ou atender demandas que geram ansiedade e roubam o sono. Nesses lugares, o tempo não parece dominar as pessoas, muito menos agir como algoz. Pelo contrário, ele se torna um aliado daqueles que aprendem a caminhar ao seu lado.

Faço essa introdução para falar da minha primeira experiência na Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira, onde passei cerca de três dias em maio deste ano.

A comunidade, que ainda mantém o coletivo no centro de suas decisões e ações, parece viver em um ritmo ditado pela natureza. Sem alarmes constantes, sem excesso de telas. As pessoas se sentam com os vizinhos em varandas humildes que guardam a história de gerações inteiras.

Quando o dia começa a terminar, uma partida de futebol movimenta a comunidade. As crianças brincam juntas, inventam aventuras e fazem travessuras que hoje parecem cada vez mais raras. Como dizem atualmente, é uma infância-raiz, com direito a pés na terra, escaladas em árvores e gargalhadas em meio a lutas imaginárias.

O fim da tarde na Cazumbá tem cheiro, cor, som e movimento. O céu alaranjado anuncia a hora em que os vizinhos se reúnem, a associação discute suas pautas e os laços comunitários se fortalecem entre as famílias espalhadas ao longo do povoado.

Enquanto dividia meu tempo entre conhecer a história dos moradores e compreender seu modo de vida, muitas vezes me lembrava da música “Vilarejo”, de Marisa Monte, que descreve:

“Um vilarejo onde areja um vento bom.
Na varanda, quem descansa vê o horizonte deitar no chão.”

Ver e viver uma rotina que, para muitos de nós, parece distante, revela o quanto determinadas dinâmicas do cotidiano nos afastam de momentos preciosos, desde uma conversa olho no olho com um amigo até um café compartilhado, enquanto se constrói uma rede de apoio para quem precisa apenas ser ouvidos.

É uma comunidade que vive do que planta, do que cultiva, e que parece ter aprendido algo que nós esquecemos, que é conviver com o tempo em vez de lutar contra ele.

Longe do celular e da correria habitual, precisei entender uma dinâmica que respeita o ritmo do corpo, inclusive o descanso depois do almoço. Ouvi mais de uma vez que não faz bem comer com pressa, que é preciso esperar “a comida assentar”. Enquanto escutava aquilo, pensei nos inúmeros dias em que almoço correndo ou, às vezes, nem almoço, tudo para dar conta das demandas do trabalho e da vida.

Então me peguei pensando: dominamos o tempo ou somos consumidos por ele?

É difícil não filosofar em lugares assim. Ali, o contato é muito próximo com pessoas que aprenderam a caminhar de mãos dadas com o tempo, sem tratá-lo como inimigo, como muitos de nós fazemos.

Foi lá que conheci o líder comunitário conhecido como Nenzinho e sua esposa, Maria. Mesmo tendo enfrentado recentemente a perda de um filho, eles se dedicaram para que nossa equipe se sentisse em casa. E nos sentimos.

Não apenas pela hospitalidade, mas pelo tempo que nos dedicaram e pela confiança depositada em nós, ao compartilharem suas histórias e suas lágrimas.

Esse é um dos aprendizados diários que o jornalismo nos dá, que é conhecer e ouvir pessoas.

É uma profissão linda, especialmente para mim, que desde criança imaginava as histórias escondidas por trás de cada rosto. Sempre achei fascinante pensar que cada pessoa carrega um universo inteiro dentro de si e que isso valia a pena ser contado.

O que me guia como jornalista e como ser humano é justamente essa convicção de que absolutamente todo mundo tem uma história para contar. Pode ser uma história feliz ou triste, inspiradora ou confusa, simples ou complexa. É ser, como diria Friedrich Nietzsche, “demasiado humano”.

Talvez seja por isso que Duda Rangel escreveu, em A Vida de Jornalista como Ela É, que o jornalismo é uma forma de devoção.

Eu iria além, diria que escrever é ultrapassar aquilo que foi simplesmente dito. Exige sensibilidade para perceber os silêncios, atenção para enxergar o que não foi verbalizado e tato para compreender aquilo que as palavras não alcançam.

Às vezes me sinto como alguém tentando completar palavras-cruzadas. A diferença é que, em vez de buscar letras, procuro entender gestos, olhares e pequenas ações. São eles que frequentemente revelam aquilo que não consegue ganhar forma em palavras. E essa talvez seja uma das partes mais importantes do trabalho.

Além das boas reportagens produzidas sobre a forma como a comunidade associa desenvolvimento e sustentabilidade, voltei para casa com algo muito mais difícil de medir. Algo impossível de traduzir completamente em palavras.

Voltei refletindo sobre os limites que estabelecemos para as relações humanas.

Talvez seja um tema delicado e complexo para encerrar um texto, mas não consegui deixar de pensar no quanto a tecnologia e a rotina frenética em busca de realizações pessoais e profissionais, o que não é necessariamente ruim, têm nos afastado uns dos outros.

Quanto de nós pertence às pessoas que amamos?

Com que frequência falamos sobre nossos sentimentos?

Quantas vezes diminuímos a distância física entre nós e quem importa?

Quantas vezes ouvimos alguém de verdade, sem distrações, sem notificações, sem o relógio nos pressionando?

Acho que, para além da sustentabilidade e dos sistemas agroflorestais, a Cazumbá nos ensina a ser mais humanos.

Ela nos convida a contemplar um céu estrelado, ouvir nossos vizinhos, compartilhar a vida, os medos e as angústias. Convida-nos a ocupar uma varanda cheia de histórias, onde as memórias circulam de uma geração para outra.

Talvez seja essa a maior lição daquele lugar: fazer as pazes com o tempo.

E termino este texto recorrendo mais uma vez a Marisa Monte, porque parece que ela descreveu exatamente o que vivi durante aqueles dias na comunidade:

“Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas
Ficam sempre abertas
Pra sorte entrar”.

Tácita Muniz é comunicóloga, repórter na Agência de Notícias do Acre; trabalhou 11 anos na editoria do Portal G1 no Acre, encabeçando projetos envolvendo todos os estados. Também foi responsável por alimentar uma página com reportagens especiais sobre a Amazônia. É fã de rock, filmes, livros e boxe, além de aprendiz de escritora nas horas vagas.

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