Com 8.165 focos de calor no Amazonas e quase 23 mil focos combatidos pelos bombeiros, governo anuncia reforço policial e novas medidas enquanto a população de Manaus volta a respirar fumaça.
O governador Roberto Cidade determinou o reforço da fiscalização, prometeu endurecer a repressão aos crimes ambientais e reuniu autoridades para discutir providências. Mas, diante da dimensão do problema, a pergunta é inevitável: onde está a resposta efetiva do governo para impedir que o Amazonas continue queimando?
Os números divulgados pelo próprio Estado são contundentes. Até 17 de outubro, o Amazonas havia registrado 8.165 focos de calor. Entre junho e outubro, o Corpo de Bombeiros contabilizou 3.748 ocorrências relacionadas a incêndios urbanos e florestais e atuou no combate a 22.974 focos.
Diante desse cenário, anunciar mais fiscalização e reforço policial não basta. A população não pode ser tratada como plateia de reuniões oficiais, discursos de mobilização e promessas que não vêm acompanhadas de indicadores claros de resultado.
O governo precisa explicar o que falhou na prevenção, por que a crise persiste e quais resultados concretos suas medidas estão produzindo.
A resposta anunciada por Roberto Cidade inclui reforço do policiamento na Região Metropolitana de Manaus, presença de agentes nas rodovias e intensificação das operações ambientais. O comandante-geral da Polícia Militar informou a mobilização de mais de 100 homens do Comando de Policiamento Especializado e 25 viaturas nas estradas com incidência de queimadas.
São recursos que podem contribuir para o enfrentamento do problema. Mas divulgar o número de policiais e viaturas não significa comprovar eficiência. Quantos incêndios foram evitados? Quanto diminuiu o tempo de resposta? Quais áreas continuam desprotegidas? Qual foi a redução dos focos após as operações?
A prisão de 11 pessoas em Autazes por suspeita de envolvimento em crimes relacionados a incêndios também foi destacada pelo governo. As detenções devem ser apuradas e os responsáveis, se confirmada a participação, submetidos à Justiça. Mas operações policiais, por si só, não demonstram que o problema esteja sob controle.
Prender suspeitos depois que o fogo se espalha não substitui a capacidade de prevenir incêndios, identificar áreas de risco e agir antes que comunidades, plantações e florestas sejam atingidas.
O discurso oficial insiste no endurecimento da fiscalização. Falta demonstrar se essa estratégia está funcionando.
O governo aponta as altas temperaturas, a baixa umidade do ar e os efeitos do El Niño como fatores que agravam os incêndios. As condições climáticas são relevantes e ajudam a explicar a propagação do fogo. Não explicam, porém, por que a resposta pública deve ser avaliada apenas pelo número de agentes mobilizados ou pelas operações anunciadas.
A estiagem e os períodos de maior risco não são acontecimentos que deveriam surpreender inteiramente o poder público. É justamente diante de condições previsíveis que se espera planejamento, prevenção, monitoramento e capacidade de resposta.
Se o risco climático era conhecido, a cobrança é objetiva: o que foi feito antecipadamente para reduzir os danos? Onde estavam as equipes de prevenção? Como foram priorizadas as áreas mais vulneráveis? Que resultados as ações anteriores produziram?
Sem respostas, atribuir o agravamento dos incêndios às condições climáticas corre o risco de transformar uma explicação ambiental em justificativa administrativa.
O governo não controla o clima. Mas tem responsabilidade pelas políticas de prevenção, fiscalização e resposta que estão sob sua competência.
A fumaça que atingiu Manaus no sábado expôs novamente o impacto das queimadas sobre a vida urbana. Segundo as informações apresentadas pelo governo, incêndios no noroeste do Pará, especialmente em Óbidos e Juruti, também contribuíram para o episódio.
A influência de focos em outros estados evidencia a necessidade de cooperação regional. Não elimina, entretanto, a responsabilidade estadual de monitorar a qualidade do ar, informar a população, coordenar ações de proteção e combater os incêndios dentro de seu território.
A crise não pode ser reduzida a uma disputa sobre a origem da fumaça. Para quem precisa trabalhar, circular pela cidade e proteger a família, pouco importa a retórica institucional: o problema é concreto e exige respostas concretas.
Onde estão os boletins regulares de qualidade do ar? Qual é o protocolo de comunicação de risco? Como estão sendo orientadas escolas, unidades de saúde e comunidades expostas? Que medidas preventivas foram adotadas para reduzir os efeitos da fumaça?
A divulgação de números sobre incêndios não substitui uma política de proteção à população. E a realização de reuniões não pode ser confundida com a solução do problema.
O governo anunciou o envio de mais cinco aeronaves federais, elevando de 11 para 16 o total informado durante a reunião. O reforço pode ampliar a capacidade de combate, especialmente em áreas de difícil acesso.
Mas aeronaves não substituem prevenção, fiscalização contínua, logística eficiente e investigação dos responsáveis. Também não resolvem, isoladamente, a falta de informação sobre a efetividade das operações.
A participação dos ministros e o apoio federal são importantes. O que não se pode admitir é que a cooperação entre governos sirva para dispersar responsabilidades ou transformar o anúncio de novos recursos em prova automática de eficiência.
A pergunta continua sendo a mesma: com a estrutura mobilizada e o reforço anunciado, quais metas serão alcançadas, em quanto tempo e como a população poderá verificar os resultados?
Até que essas informações sejam apresentadas, o anúncio de mais equipamentos permanece como promessa de capacidade operacional, não como comprovação de que a crise está sendo controlada.
Roberto Cidade afirma que o governo trabalha dia e noite e pede a colaboração da população. Denunciar crimes ambientais é importante. A participação dos cidadãos pode ajudar a identificar infratores, mas não transfere à sociedade a obrigação de compensar eventuais falhas de planejamento ou execução do poder público.
O Estado dispõe de órgãos ambientais, bombeiros, forças policiais e estruturas de fiscalização. É legítimo, portanto, cobrar integração entre essas instituições, transparência na aplicação dos recursos e resultados compatíveis com o tamanho da emergência.
Quantas operações produziram redução comprovada de incêndios? Quantas áreas críticas foram protegidas? Qual é a evolução dos focos em comparação com períodos anteriores? Que metas foram estabelecidas para os próximos dias? E quem responderá caso as medidas anunciadas não produzam os resultados esperados?
Essas são as perguntas que precisam ocupar o centro do debate, em vez de mais uma sequência de declarações oficiais.
O governo não pode reivindicar crédito apenas por mobilizar estruturas que existem justamente para enfrentar emergências. Precisa demonstrar que elas estão funcionando, que as ações são coordenadas e que o dinheiro público está produzindo proteção efetiva para a população.
O Amazonas não precisa de mais um anúncio de rigor. Precisa que o rigor apareça na prevenção, na fiscalização e nos resultados.
Enquanto a fumaça volta a encobrir Manaus e os números oficiais revelam a dimensão dos incêndios, o governo de Roberto Cidade tem uma obrigação que não pode ser substituída por discursos: apresentar resultados verificáveis e explicar por que as medidas adotadas ainda não impediram que a crise chegasse a esse ponto.
Para o cidadão que respira fumaça, para quem perde sua produção e para as comunidades ameaçadas pelo fogo, não basta ouvir que o governo está agindo. É preciso saber se está conseguindo resolver.
O balanço oficial mostra a dimensão da emergência. Agora, cabe ao governo mostrar a dimensão da sua resposta.