O Chamado soa. Urge, grita, incendeia sua vontade. Você não demostra percebê-lo – a angústia esconde-se bem nas dobras dos sorrisos. O Chamado alterna-se em ondas de violência contra os rochedos da sua sensatez, ou adoça-se de ternura no sal do mar da sua alma. Você ignora.
Tem hora marcada com o dentista. Tem uma festa, um carro, alguns amigos, um celular que toca bastante, sete desejos, 3 gatos, dois cachorros, oito lembranças do último verão na praia, cinco peixes no aquário, dez anos de falecimento do seu pai, três abraços daquele antigo amor que foram guardados como reserva de mercado, nove dores, uma ladainha de patrão e milhares de perguntas que ninguém respondeu nessa tão exata equação da sua vida.
O Chamado continua. Ignora que você o ignora. Chamado não tem bens nem lados. Não tem senhores, tem apenas urgência.
O Chamado esparrama-se na música que acaba de tocar, cai na sopa no lugar da mosca, bate no seu ombro no lugar do amigo, grita no trânsito, surge na novela das oito, é anunciado no jornal de Domingo.
Pronto! Você está perdido, cercado. É melhor atendê-lo, mandá-lo logo embora, falar que não quer comprar nada e pedir que ele não insista.
Mas você não conseguiu fazer isso. Ao abrir a porta do espírito para mandá-lo embora sua alma o viu... Sua mente ainda tentou enganá-lo dizendo: “Senhor Chamado, o senhor está equivocado, o número dessa vida passada é do vizinho, eu fui Napoleão, e na outra, antes dele, eu fui Cleópatra” – Sua mente achou melhor dizer logo que foi alguém importante para impressioná-lo com autoridade desses nomes célebres. E foi além: “Nós estamos de mudança, não poderemos ir com o senhor, tente levar a mulher do meu patrão, ela adora essa bobagens esotéricas, tem guru, mapa astral e tudo, com a gente o senhor não vai conseguir nada. Digo a gente, eu e o coração, que está lá dentro assustado, acha que conhece o senhor de algum lugar, mas coração não se leva a sério, é bicho insensato, fica logo indócil, mas eu já vou tranqüiliza-la e dizer que foi engano esse chamado. Tente vir na nossa outra vida se o senhor acreditar em reencarnação. Passar bem, boa noite!”
A porta é batida na cara mas o Chamado nem se mexe. Ficará ali a vida toda se for necessário. Daí a alma, que viu a mente mandar o Chamado embora começa a assistir ao duelo do coração e a mente. Ouve a longa argumentação dos dois. Depois, veste-se de nudez, lembrança, fantasia e resolve atender ao Chamado, está cansada das divisões. Sabe que a vida é feita apenas de abismo e geografia e que a tristeza só passa por onde passou a alegria. Sente que talvez a hora tenha realmente chegado. Acende-se de esperança, depois de inúmeros fracassos espirituais e buscas dá início a viagem levando na bagagem apenas o dualismo da sua matéria:
razão e emoção. A alma sabe que precisará nesse novo trajeto da lucidez da mente para duvidar dos Mestres, e da insensatez do coração para acatar os Mestres por mais esdrúxulos que eles lhe pareçam.
Está na hora de atender seu Chamado.