O dia de Hoje nos avisou que é hora de acordar e abrir a janela com vista para o desconhecido. Para o mistério do império de um novo dia, independente da passagem da hora que nos contraria, viva o Dia!
Nos mandou sinais em imprevistos e ordenou: esqueçam a agenda, roubem os pincéis de Deus e pintem o mundo com o absurdo da poesia.
E o Dia enlouqueceu: nos mandou entregar flores à turma que esperava pizza.
Postais e cartas apaixonados nas caixas de correios empoeiradas das pessoas solitárias. Nos fez telefonar para nós mesmos conversando horas sem achar que foi engano. Mas ele ainda foi mais longe... O Dia ganhou vontade própria e foi impossível contê-lo.
Um Dia novo foi inaugurado nos monumentos das praças que nunca temos tempo para visitar, onde compareceram milhares de pássaros para bater asas. Um Dia longo o suficiente para ficar esperando numa esquina nossa outra metade. Um Dia curto para viajar pelo mundo com o ser amado fechando bares e fotografando auroras.
Um Dia eterno para escrever um filho, plantar um livro e parir uma árvore.
Um Dia efêmero para chorar por tudo que não fizemos.
Um Dia noite para acender candeias, avisando as estrelas que não há regras, elas podem brilhar ao sol do meio-dia e descer cadentes em miríades, para realizarmos nossos desejos e os dos outros.
Um Dia tarde, sem o alarde que o momento mágico passou e nos doeu a brevidade. Um Dia chuvoso, pra gente não ler o jornal e transformar as notícias importantes numa procissão de barquinhos de papel, escandalizando os guarda-chuvas que escondem as pessoas da gente.
Um Dia de sol, de farol incandescente, que amoleça nossa vontade de se vestir para os outros, e livres, todos saiam dos bolsos vazios das roupas.
Um Dia nosso, para que a gente dê aos outros pedaços de horas deliciosas, acúmulos de segundos de paz, minutos de sorrisos, abraços, beijos gritos, inconfidências.
Um Dia criança, que conte histórias para fazer dormir os adultos, e acordar a infância pulando de amarelinha nos sinais de trânsito.
Um Dia poeta, para pintar o céu de verde e lambuzar os prédios de morango e chantilly, adoçando o mundo com de alegria.
Um Dia índio, não selvagem, livre, para acreditar em deuses da floresta e fazer festa porque nasceu uma flor ou uma dor – sem discriminação de dádivas.
Um Dia meu, onde eu acorde e aproveite o fato de estar viva, sem precisar ter alguém, um mapa, um guru, uma bússola.
Um Dia livre da véspera e do dia seguinte.